quarta-feira, 26 de julho de 2017

Moka: a perdigueira inteligente - Por Adaír Dittrich

 
Moka: a perdigueira inteligente

 

 

      Depois que o nosso grande amigo Graife partiu para morar nas campinas eternas onde foi se integrar à matilha-potestade dos anjos-cachorros, meu pai ficou algum tempo sem o seu esporte único, a caça.
Não sei quanto tempo se passou, mas não demorou muito e um dia ele apareceu com uma linda cadela de branca pelagem com manchas de cor marrom clara, uma verdadeira cadela da linhagem dos imponentes e nobres pointers perdigueiros. Olhos brilhantes, amenos, dóceis, meigos e profundos cativando a todos nós já na chegada, nós, os órfãos de Graife.
E como era inteligente. Fazia coisas inacreditáveis para um comum dos mortais cachorros. Mas não para ela.
Moka era um ser vivo que circulava em torno do mundo como conhecedora dele há milênios. Cuidava da família. Cuidava de meus sobrinhos ainda pequenos, ainda bebês, como uma babá não o faria melhor.
Avisava minha irmã para que fosse trocar as fraldas antes mesmo que o bebê emitisse um som, um vagido. Dava uma latidinha característica, abanava o rabo, fazia meia volta e lá ia minha irmã atrás dela para ver o que tinha acontecido. Parava ao lado do berço para onde apontava com a cabeça. E era sempre positivo o sinal. Hora de trocar as fraldas.
Era um tempo em que havia muita gente transitando pelos trens da Rede Ferroviária. E o Restaurante da Estação sempre repleto para o almoço e o jantar. Com muitas toalhas sendo diariamente trocadas nas três grandes mesas. E não é que a Moka as tirava do lugar depois que as moças-ajudantes haviam recolhido a louça e os utensílios usados nas refeições? E as colocava no devido cesto de roupa suja do Restaurante.
E não eram só as toalhas e demais roupas do restaurante que precisavam ser lavadas e passadas. Também havia as da casa que eram muitas. Família grande e mais quatro empregadas que conosco moravam. Lavanderia sobrecarregada em um tempo em que nem se falava, no Brasil, em máquinas de lavar roupa, que dirá em máquinas de secar. Toda aquela roupa branca era estendida em dois imensos gramados, chamados de corador. E, adivinhem, quem recolhia a roupa seca do corador? A Moka. Peça por peça ia sendo transferida, sem nenhum estrago, para a área dos tanques.
Mas, o mais interessante não era esta arte. Era algo mais, algo que só o instinto de um ser privilegiado e altamente evoluído como era a Moka, era capaz de fazer. Em pleno azul estridente, sem nem sequer uma branca nuvem lá no alto aparecendo, vinha a Moka puxar a barra da saia de minha mãe levando-a até os varais onde penduradas estavam as peças de roupa para secar. Olhava para a roupa, olhava para o céu e olhava para minha mãe. E não cessava até que minha mãe recolhesse tudo. E ela junto, rente, ao lado. Não demoraria muito para negras e volumosas nuvens cobrirem os céus e em seguida desabar o temporal com ventania e todo o séquito que o acompanha.
E esta era a nossa Moka doméstica. Mas Moka era perdigueira. E que perdigueira!
Cedinho, bem cedinho, meu pai saía para caçar as perdizes. Tudo preparado na véspera. Espingarda limpa. Cartuchos montados na dose certa. Meu pai vestido a caráter com seu gibão de mateiro, com curta botina e a indefectível perneira. E lá iam os dois,
rumo às pradarias, aos Campos do Miranda, ali, do outro lado do rio, já à esquerda da ponte grande da estrada de ferro.
Moka amarrava a caça que estava entre as moitas e, antes de fazê-la sair do esconderijo olhava para meu pai à espera do sinal demonstrativo de que ele estaria pronto para o tiro. E então, só então, cercava melhor a perdiz e a fazia explodir em rápido movimento para o alto. O tiro certeiro pegava a ave em pleno voo.
Mas Moka não era afoita. Esperava novamente o sinal de meu pai para ir buscar o pássaro abatido. Que trazia até ele, presa por uma asa ou pela cabeça.
E assim os anos se passavam. Até que um dos netos, já mais crescido acompa-nhava meu pai, ajudando no transporte do farnel, do cantil de água e da bolsa de lona com os apetrechos de caça. A espingarda ele levava com o cano dirigido para o solo e o cabo apoiado no ombro.
Ia sempre aos sábados buscar as perdizes para o tradicional almoço de domingo que só acontecia na temporada de caça. E trazia apenas quatro aves que seria a quantidade normal. Jamais matou uma a mais. Perdizes que minha mãe preparava "a cacciotore", no forno à lenha, claro.
Em uma tarde modorrenta meu pai estava a cochilar em sua poltrona na sala de estar e no sonho estava caçando. A Moka, lá, à beira do pântano, amarrando a perdiz. Enquanto, em sonhos, preparava a espingarda para o tiro, foi sendo acordado, devagarinho, pelo ruído de uns passos ao seu redor. Pasmem! Era a Moka amarrando a perdiz que estava dentro do sonho dele!
De tão especial que ela era que nosso vizinho, seu Lepper, contador na Firma Wiegando Olsen, quis comprá-la. Para não se desfazer dela e não magoar o companheiro de caçadas pediu um alto valor, uma importância bem acima de qualquer bolso. Mas, a vontade de ter Moka a seu lado fez com que o bolso de seu Lepper não fosse qualquer bolso. E fechou o negócio, ali mesmo, na mesa do bar onde faziam o seu aperitivo diário.
Imaginem o estado emocional de meu pai que depois explicava a sua triste decisão. Deu voltas e voltas filosóficas terminando por dizer que quando alguém quer demais o seu cachorro é melhor deixar que vá. Porque seria preferível não ter mais a Moka conosco, que vê-la morta que é o que aconteceria. O cachorro morre de uma causa desconhecida, segundo a lenda.
E assim ela ficou do outro lado da cerca. Cerca com um pequeno portão que seu Lepper mandou fazer depois que percebeu a falta que para ela fazia o todo do nosso território.
Ela vinha passar um pedaço de seu tempo do nosso lado, correndo atrás das galinhas fujonas, espantando gambás, mas voltava depois para a outra casa que agora era dela.
Conosco ficou um rebento que ela deixou; um arteiro filhote que pulava por todo o tempo e por tudo. Era o Glutão. O filho de Moka.
Carro e cão eram de propriedade do Sr Wiegando Olsen.
Acervo de Adair Dittrich.
 
Cópia de um texto inserido no livro “O Meu Lugar”.
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