sábado, 8 de outubro de 2016

Seu nome era Clara

Jovem Maria Isabel Tadra.


       Mais de vinte minutos já se tinham passado desde que o trem de passageiros havia tomado o rumo oeste. E outra locomotiva, soltando fumaça e vapor por todos os lados, puxando a pequena composição mista, acabava de sair com destino à cidade de Canoinhas. Bem neste momento minha mãe deixava o interior da residência anexa à estação ferroviária de Marcílio Dias para correr atrás de mim, que lá de dentro, debaixo dos pés dela, havia sumido.
Claro que desta cena eu não poderia me lembrar. Pouco tempo fazia que dois anos de idade eu completara.
Era o ano de um mil e novecentos e trinta e seis. Não sei qual era o mês. Mas não fazia frio ainda. Talvez um prenúncio de outono. Meu irmão mais novo, Amaury, o Maurinho, era um bebê de colo, bem tenrinho ainda.
E foi ali, na plataforma da estação quase vazia que minha mãe a viu. Mocinha, adolescente ainda, quase uma menina, muito magra e muito pálida, quase amarelinha…
Ela estava sentada em um dos bancos tendo a seu lado uma pequena mala, com seus pertences todos, talvez e, nas mãos, apertando contra o peito trazia uma minúscula bolsa na qual guardava suas mais caras lembranças.
Olhos castanhos, quase negros, cabelos castanho-escuros e uma tez que, se não fora a palidez da pele, dir-se-ia ser morena, trigueira, mediterrânea. Não era muito alta. Tinha anos pela frente ainda para atingir uma estatura mediana, talvez.
Minha mãe olhou para ela. Ela olhou para minha mãe. E naquele olhar criado foi um vínculo para a vida.
Aos poucos ela foi explicando as razões que a trouxeram até ali. Viera das terras de serra abaixo. Onde grassava a maleita que, quando não ceifava vidas a muitos em permanente estado de doença deixava. Ela tivera a sua dose da doença, mas por sorte, pensava ela, tinha sido das fracas. Mas, fraca a deixara.
Viera atrás de pessoas que de serra abaixo egressas também eram. Que para nossa saudável vila tinham vindo. Para ficar.
Mas ela não queria incomodar ninguém. Não queria na casa de outrem de favor morar. Pensara em procurar um local onde pudesse trabalhar. E com seu trabalho pagar o pouso e o pão.
E, animada com a conversa entabulada, perguntou para minha mãe se ela sabia ou conhecia alguma família aonde, nestas condições, pudesse ficar para um serviço doméstico fazer.
Meu irmãozinho só não chorava se no colo de alguém estivesse. E lá em casa só restava minha mãe para niná-lo assim. E eu… eu que quase bebê me considerava também. Só que eu era um bebê que mais trabalho dava. Porque por tudo eu corria e buracos na cerca encontrava para sair pela rua dos fundos da estação. Aonde movimento de veículos não havia. Ainda. O perigo ficava em frente. Com o contínuo chegar e sair de trens.
E minha mãe envolvida com suas altas costuras. Sempre. E havia ainda lá em casa uma outra máquina diferente, embora no mesmo estilo da de costura. Bem maior. E mais ruidosa. Era a máquina de Point d’Ajour. Ou de ponto Ajour. Com ela minha mãe desenhava artísticas bainhas em lençóis e toalhas, em fronhas e guardanapos e até em barras, babados e mangas de muitos vestidos. Também era, partindo daqueles minúsculos pertuitos em finos fios envoltos, que linhas por agulhas conduzidas criavam, em crochê, rendas e franjas para colchas, toalhas de banho, de rosto e de mãos.
A clientela feminina para este trabalho de minha mãe aumentava dia a dia. Mas, avolumavam-se as peças ao lado da negra e grande máquina. Onde ela podia trabalhar com sossego apenas quando o mais novo rebento dormia.
Morávamos na residência da rede ferroviária porque meu pai era o chefe, o agente da estação. Entre as dependências da casa e o escritório e o telégrafo da ferrovia havia apenas uma fina e simples parede de madeira. E nem o melhor ouvido do mundo captaria as mensagens enviadas em alfabeto Morse pelos fios do telégrafo com um insistente e contínuo choro de um recém nato do outro lado da parede.
Aline, Avany e Aldo, meus irmãos mais velhos já nos internatos se encontravam estudando. Fito, meu outro irmão era ainda um piá que só sabia correr atrás de passarinhos quando não estava na escola.
Restavam poucos momentos do dia para que minha mãe pudesse se dedicar a este seu mister. Bem que ela tentava passar os panos sob as agulhas da máquina de ponto Ajour com Maurinho em seu colo. Mas para o trabalho ficar perfeito ela precisava das duas mãos. E dos dois pés para acionar os pedais. Como desvincular-se daquelas tantas tarefas com outra menina traquinas e ciumenta a intrometer-se ainda entre as suas pernas?
Tudo isto relampagueou pela mente de mamãe enquanto ela ouvia a garota a seu lado em um dos bancos da plataforma da estação de Marcílio Dias.
Então aquela menina-moça ali sentada, com seus grandes olhos castanhos e sua simpatia era tudo o de que minha mãe precisava.
Seu nome era Clara. Clara Finta.
Ficou conosco até o dia em que se uniu a seu príncipe encantado, o seu Arthur. Arthur Kersten.
Mas muito eu tenho para contar do tempo em que Clara fez parte de nossas vidas.
(Continua.)
Texto de Adaír Dittrich colunista do Portal JMais.
Casamento de Arthur e Clara.
Acervo de Úrsula Mews sobrinha do seu Arthur.

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